segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Do fundo do baú digital

Estava eu a vasculhar um disco de backup, e encontrei algumas coisas muito legais de um passado não tão distante assim. Além de uma série de fotos, a maioria já devidamente hospedadas na galeria do Picasa que leva o nome deste blog, encontrei as matérias que escrevi para o Craque do Futuro, um programa de estágio do diário LANCE! (sim, sou um fanfarrão e, apesar de fazer faculdade de informática, me inscrevi em um programa de estágio jornalístico, só para gastar os dedos escrevendo sobre futebol).

Assim sendo, irei compartilhar com todos a minha matéria favorita, que escrevi sobre um fato ocorrido antes da partida entre Santo André e São Bento, ocorrida no início de 2006.

Ambulantes não podem atuar perto do Bruno José Daniel

Venda a distância de duas quadras do estádio faz com que lucro de Antonio Marchetti despenque

Há 14 anos, o ambulante Antonio Marchetti vende lanches e bebidas nas imediações de estádios de futebol. Porém, neste ano, ele tem sido impedido de trabalhar nas imediações do Estádio Bruno José Daniel, em Santo André, e tem de ofertar seus produtos a dois quarteirões do estádio. Tamanha distância fez com que suas vendas sofressem uma queda vertiginosa, para não dizer desesperadora.

Em outros tempos, Antonio conseguia faturar R$ 300 em dias de confrontos do Santo André contra times grandes, mas, atuando longe do estádio, faturou pouco mais de R$ 70 na partida entre Santo André e São Paulo, ocorrida no último dia 18 (vitória do Santo André por 1 a 0). Se este é o faturamento de um jogo contra um time grande, as expectativas de Antonio Marchetti, que conta com o auxílio de seu filho Fernando, não são nada animadoras.

Inconformado com sua situação, Antonio decidiu expressar seu sofrimento, e espera um dia poder voltar a trabalhar nas imediações dos estádios:

- Eu fico chateado porque a gente é pai de família, a gente precisa trabalhar porque emprego a turma não dá para a gente mesmo. Vou fazer 49 anos, estou desempregado, preciso trabalhar, tenho família, preciso pagar minhas dívidas também e a gente vive disso aqui. Já há 14 anos trabalho com barraca, em muitos lugares a gente roda. Agora, quem mora aqui perto e quer trabalhar aqui no Bruno José Daniel não tem condições porque não deixam a gente trabalhar nem na frente do estádio.

Apesar da situação, e talvez até mesmo por conta dela, Antonio mostra seu caráter e se recusa a abandonar seu ofício para se dedicar a outras atividades menos honrosas ao mesmo tempo em que faz um apelo:

- Nós somos pais de família, a gente precisa trabalhar, pô! A gente vai roubar? Quem somos nós? Eu, graças a Deus, sou evangélico, e pretendo trabalhar muito na minha vida, na honestidade. Então eu estou pedindo para pelo menos na frente do estádio a gente trabalhar, porque todo mundo aqui é pai de família, mãe de família, precisa trabalhar. A gente necessita muito do emprego.

Sofrendo na própria carne as quedas nas vendas, ele faz um apelo:

- A gente fica chateado porque a gente vem, compra a mercadoria, chega aí, o tal do (major) Marinho não deixa a gente trabalhar. Pô, ele é aposentado, já tem o serviço dele. Deixa a gente trabalhar!

Em tom de despedida, Antonio revela seu mais íntimo desejo:

- Nós não somos marginais, não somos nada. A gente quer trabalhar...

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Quando as flores envelhecem



Nada neste mundo é permanente. Dado certo tempo, locais, seres, e até relacionamentos se desgastam e, por fim, apodrecem. Mesmo as flores, quando é chegada a hora, não permanecem como sementes, simplesmente morrem, mas talvez seja a sua decomposição que as torne tão belas enquanto envelhecem e amadurecem.

A hora de plantar novas flores no jardim se aproxima, mas quantas flores mais se perderão durante o desenrolar desta história? Quantas flores serão ceifadas prematuramente para que se mantenha a lembrança das mesmas pela eternidade? Não sei, apenas posso prometer depositá-las sobre o solo fértil do jardim, para que venham a adubar as flores do amanhã, pois, no fim das contas, somos todos autodestrutivos e necrófagos.

(Flores de plástico não morrem, pois jamais estiveram vivas)
BGM: The Cure - Where the Birds Always Sing

terça-feira, 23 de outubro de 2007

The Hanging Garden

Quem diabos é o louco que pendura uma garrafa vazia e invertida ao lado de uma árvore? Não se sabe, mas o mais incrível é que isto não acontece com apenas esta árvore na ETE Lauro Gomes (entrada da Fatec São Bernardo). Deve ser alguma espécie de arte expressionista ou talvez uma homenagem aos jardins suspensos: o jardim das garrafas enforcadas...

domingo, 21 de outubro de 2007

A essência do blog


II ESPMusic: organizado por alunos da ESPM, realizado no Nacional (um dos fundadores da Federação Paulista de Futebol), com open bar e uma concentração incrível de mulheres por metro quadrado. Não suficiente, ao avisar que demoraria alguns minutos (quase 1h30) para abrir os portões, um dos tiozinhos da organização ainda fez questão de distribuir cervejas geladas para todos, como uma forma de compensar ao público. Detalhe: Antes mesmo da venda de ingressos, de forma que qualquer ruela podia passar lá e levar uma breja para casa.

Apesar de tudo, o melhor da noite foi o show do Móveis Coloniais de Acaju. Músicas originais, leves (mas profundas) e uma grande performance ao vivo!

Fiquei R$ 40 mais pobre e um litro de Orloff mais gordo, mas valeu a pena =)

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Notas de rodapé em uma página vazia



Beavis & Butt-Head. Certamente um dos ícones de toda uma geração doped off, seja pelas drogas, pela falta de oportunidades ou simplesmente pela constante exposição ao Domingão do Faustão nas tardes dominicais. Não dá para definir como algo menor do que "genial" as visões de mundo que se expressam em seus comentários durante as exibições de trechos de clipes, como bem exemplifica o episódio acima (No Service, da sexta temporada do seriado):

  1. Half Man Half Mole (Chris Knox): "Dammit, Beavis! You'll never gonna out be... be smarter than me. So don't even try, just shut up!"

  2. Scatman (Scatman John): "There already is a name for this kind of music, Beavis: it's called crap!"

  3. Malibu (Chick): "Check it out, Butt-Head! A whore!"

Talvez por misturar altas doses de ironia, desilusão e sinceridade em um mundo mais ingênuo, sem temores de hecatombe nuclear ou ataques terroristas, que séries como Beavis & Butt-Head, Garoto Enxaqueca e Liquid Television, apenas para citar algumas, se tornaram cult e até hoje permeiam o imaginário de muitos, principalmente por acreditarem em si próprias e não apenas tentar vender imagens ou produtos. E, atualmente, a própria MTV, emissora que veiculou os referidos desenhos, demonstra uma incrível falta de fé em sua própria essência, principalmente (mas não apenas) por relegar a música, um produto menos atrativo, que possibilita menos intervalos comerciais e demais caça-níqueis, a horários menos atrativos, quando o fim subverte o meio e se torna origem.

Contudo, que fim levaram os Beavis e Butt-Heads da vida real? Aquele jovem risonho, que não queria nada da vida em 1994, ano em que foi lançado o single Scatman (Bi-Ba-Bop-Ba-Dop-Bop), classificado muitas vezes como "música de elevador" pelo mesmo, ronda os trinta anos em 2007, e talvez tenha enriquecido ou more escondido no porão da casa dos pais por ser a vergonha da família, não se sabe ao certo. Há apenas uma certeza: em meio a uma existência vazia em um mundo sem sentido, Beavis & Butt-Head sempre merecerá uma citação honrosa, um símbolo de tempos irrelevantes, e exatamente por isso inestimáveis.

domingo, 7 de outubro de 2007

Waiting for the Sirens' Call

Que alma insana liga para outra pessoa 5:30 da manhã do meio da balada, apenas porque estava tocando New Order e essa pessoa gostaria de compartilhar a experiência contigo?

Não suficiente, quem ainda tornaria a ligar dois minutos depois da primeira ligação, que não foi atendida, apenas para tentar mais uma vez trazer alegria a outra pessoa?

Definitivamente, devo me sentir um abençoado por ter ao meu redor pessoas que gostam tanto assim de mim, assim como lamentarei não estar acordado a essa hora para atender ao chamado...

Já que o New Order foi a causa deste post, nada mais justo do que uma homenagem: uma versão instrumental de Bizarre Love Triangle, executada por um maluco de Nantes que toca de ouvido.

PS: Foi ligação a cobrar? Foi, mas não diminui em nada o mérito (pelo contrário). Foram as primeiras ligações recebidas desta pessoa no dia? Não foram, mas isso é assunto para outro post, se muito =P

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Já comeu um palhacito hoje?


"Palhacitos? Os como com farinha e pimenta no café-da-manhã. Todos os dias."
De todas as bizarrices que o mundo pode oferecer em plena segunda-feira de outubro, uma das poucas que eu não esperava era encontrar um palhaço, devidamente trajado, abastecendo seu Fiesta às 22h40 no posto de gasolina da esquina de casa.
Como é de se esperar, não perdi a oportunidade e pedi para tirar uma foto com aquele estranho, de cara meio amassada, que, sem fazer esforço algum, alegrou a noite de uma pessoa. Como me foi dito depois, "há cenas que dinheiro nenhum neste mundo paga".
Mas, afinal, por que a figura do palhaço desperta tanta simpatia por parte dos adultos, e por que tantas crianças acham o palhaço uma imagem assustadora? Curiosamente, encontrei uma possível explicação no prefácio escrito por Garry Trudeau na obra "Calvin e Haroldo : e foi assim que tudo começou", de Bill Watterson:
Existem poucas fontes de humor mais confiáveis e perenes que a mente de uma criança. A maioria dos cartunistas, seres infantilizados que são, sabe bem disso. Mas, quando se dispõem a captar o espírito tumultuoso dos pequenos, eles quase sempre trapaceiam. Sem pudor, criam não crianças reconhecíveis, mas adultos em miniatura, irritantes e piadistas. Pode-se atribuir isso a indolência ou falha de memória, mas a maioria das pessoas que escrevem diálogos cômicos para crianças dá mostra de uma surpreendente falta de sensibilidade - ou de fé - em relação ao material que as inspira, isto é, a infância, em toda a sua livre e encantadora exuberância.
Talvez isso explique também a melancolia inerente ao palhaço, capaz de alegrar o dia de outras pessoas, mas geralmente frágil e vacilante ao tratar de seus próprios fantasmas, algo inadmissível para uma criança, que logo trata de identificar aquele sujeito em roupas engraçadas e com um falso sorriso desenhado em sua face não como um dos seus, mas sim como uma alma atormentada tentando recuperar o irrecuperável.
Pensando bem, talvez isso explique o porquê de eu ter feito uma careta na foto com o palhaço. Ou não, talvez seja a mesma cara de sempre, mas isso eu descubro outro dia. Neste momento, tenho de colocar um sanduíche de atum como isca na minha armadilha para tigres. Como se sabe, tigres fazem qualquer coisa por um sanduíche de atum...