"Mais quente e úmido, com cheiro de mato."
Não há como não reparar no ar de Santa Rita do Passa Quatro logo ao desembarcar na rodoviária. Deve ser alguma espécie de implicância minha, não sei, mas aparentemente não há um único dia em que a temperatura na cidade esteja abaixo dos 30°C.
Aliás, falando em temperatura, o tempo em Santa Rita parece correr de maneira diferente. Os elevadores ainda não chegaram a estas terras, pois, se chegassem, teriam de encarar o desemprego estrutural (assim como boa parte da população), visto que as construções mais altas da cidade são sobrados.
Os dias começam mais tarde e terminam mais cedo, especialmente em época de feriados, situação simetricamente oposta ao cotidiano das grandes cidades em feriados, quando o expediente muitas vezes é extendido, para não perder a clientela. Comércio apenas até o meio-dia e olhe lá...
Nesta cidade, aonde quer que se vá, sempre haverá um par de olhos que se espreguiça calçada afora a vigiar seus passos com um misto de curiosidade e indiferença, como a dizer "pressa para quê?".
Apesar do ar nostálgico que carrega, Santa Rita do Passa Quatro também acompanha a passagem do tempo. Não apenas, ao contrário de minha infância, as pessoas começam a morrer, como (quem diria!) já até ocorrem prisões de traficantes, que, naturalmente, se transformam instantaneamente em manchetes dos jornais locais. Em compensação, ninguém neste feriado de Finados foi capaz de trazer de volta a Santa Ritense, equipe de futebol que por seguidas vezes foi impedida de lutar pelo acesso nas divisões inferiores do Campeonato Paulista por causa da lotação minúscula de seu estádio - 5.000 torcedores - que não pode ser ampliado por razões estruturais (leia-se "o terreno ao lado não está disponível").
Vale lembrar que a Santa Ritense, apelidada carinhosamente de Vermelhinha por seus torcedores (que dificilmente faziam as bilheterias chegarem ao terceiro dígito), já abrigou craques do naipe de Bermuda, Jomar, Lê Usina, Massaro e até mesmo o haitiano Kowsky, lateral-direito/volante que veio ao Brasil como turista para se refugiar da desordem que tomava conta de seu país, e não obteve um visto de trabalho por causa da maravilhosa burocracia tupiniquim. Não sabem o que perderam...
No dia em que for contar histórias para meus netos (embora nem ao menos pretenda ser pai), certamente comentarei o treino que vi de Kowsky Sainvil, que não devia nada a nenhum Joílson (Botafogo) da vida, enquanto estiver com minha camisa 7 do uniforme reserva da Santa Ritense. E apenas por ser uma relíquia que não posso ser considerado herege, pois durante um mês fui zagueiro do outro time da cidade, o Cinelândia, que sempre se manteve fiel ao amadorismo, e era treinado pelo Seo Várti, pedreiro nas horas vagas, já que em meu imaginário o mesmo sempre será técnico de futebol, que me fez chegar ao Interfatec 3 como titular do meio-campo da Fatec São Bernardo, que, esta sim, mantenho guardada comigo uma camisa como recordação. Embora tenha jogado com a 2, atuava como volante (ou trinco, como dizem os tugas), mais pela esquerda, por ser igualmente (in)eficiente com ambas as pernas.
Voltando ao presente, jamais poderia deixar de escrever sobre uma das lembranças nostálgicas desta viagem: um louco (no sentido real da palavra) que, lá pelas tantas, brotou em um dos bancos do ônibus. Falava sozinho o tempo todo e trocava constantemente de cadeira, o que causava um tilintar constante de seus vários adornos. Visualmente, o tiozinho, um senhor de meia-idade, era um show: jaqueta de couro rasgada e possivelmente alguns números menor do que ele mesmo, um headphone todo remendado com fita isolante, latas e mais latas amassadas e amarradas como se fossem colares e até mesmo uma cabeça de boneca davam o ar da graça, fora um pedaço de metal que parecia ser uma tampa de panela ou algo assim que protegia (?) suas costas.
Entre comentários com seus amigos imaginários e resmungos sobre o volume do som que só ele ouvia, um comentário valeu por toda a viagem: "Chegando em Santa Rita vou é detonar na cachaça!"
Problemas, para quê? Esqueça as contas, o perfume da esposa, as roupas dos filhos, descarregue a carcaça e caia na carne com cachaça. Por isso que os mais loucos nos remetem à infância: trazem lembranças de tempos em que a maior preocupação de nossas vidas era a chegada da hora do recreio que jamais vinha...
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