Ao ligar a televisão em um noticiário local (Jornal da Clube), além de notícias que certamente mudarão os rumos da humanidade, tais como um atropelamento na Anhanguera ou a previsão de ventos de 17 km/h na cidade de Pirassununga no decorrer do dia seguinte, uma matéria divertidíssima marcou esta viagem.
Na cidade de Ribeirão Preto, um garoto de 10 anos chamado Fernando se tornou notório em sua vizinhança por praticar dois esportes: futebol (no qual o jovem não passa de um zagueiro perna-de-pau) e, pasmem, ballet. Entre depoimentos de sinceridade duvidosa e colegas de time, o técnico da equipe e praticamente qualquer um que arrumaram para fazer as entrevistas, por fim, o repórter faz uma pergunta sensacionalista para encerrar a matéria:
- Você não se sente envergonhado por ser o único garoto da turma?
Com a maior naturalidade do mundo, o jovem Fernando simplesmente responde a pergunta, com o ar de inocência que é peculiar aos que têm esta idade:
- Não, porque eu faço o que gosto.
Aquela declaração do garoto me levou posteriormente a uma reflexão: quanto tempo gastamos com coisas que não são importantes apenas para realizarmos uma auto-imagem que, no fim das contas, não serve para absolutamente nada, é uma casca vazia, sem conteúdo. É praticamente como se o repórter gritasse em palavras surdas "sejam fracassados como eu sou!".
No dia seguinte, além de ver praças, vendedores de laranjas e plantas até onde a vista alcançava, resolvi fazer um programa mais alternativo: ao invés de visitar a Três Quedas, famosa cachoeira da cidade, portanto programa mainstream, preferi fazer uma caminhada de alguns quilômetros pela estrada Zequinha de Abreu, ao mesmo tempo maravilhosa e extremamente perigosa, pois, se por um lado é a estrada mais bela que já vi em minha vida, com toda a exuberância da vegetação correndo junto aos carros, por outro lado é como se os motoristas dirigissem em meio a uma trilha dentro da mata fechada, razão pela qual também há uma quantidade perturbadora de cruzes, altares e afins por sua extensão (a bem da verdade, a Zequinha de Abreu de hoje mal é sombra da estrada de outrora, pois, em nome da vida, devastaram boa parte da vegetação original, mas ainda é possível ver árvores muito antigas no trajeto, em especial no oitavo quilômetro, praticamente intocado).
Em uma caminhada absolutamente sem rumo foi possível reavaliar alguns conceitos, expurgar alguns fantasmas do passado e contemplar a dualidade de certos momentos da vida. Afinal, estou quase lá, mas ainda sinto muita falta de meus tempos de peregrino, quando a única coisa que importava era coisa alguma. De fato, ultimamente ando muito preocupado com coisas aparentemente irrelevantes, e não sei o que isto significa exatamente, mas, por outro lado, quanto mais me solto das amarras que me prendem a este mundo, mais aprendo sobre o funcionamento do mesmo. Ou algo assim, claro...
A quem interessar, segue o link com a galeria de fotos desta viagem para Santa Rita do Passa Quatro: http://picasaweb.google.com.br/fafucemu/SantaRitaDoPassaQuatro02 (a qualidade das fotos é ruim porque as mesmas foram tiradas com câmera de celular)
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